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Saúde

Filtro solar: para usar e abusar

4 de setembro de 2019

Você escova os dentes todos os dias? Mais de uma vez, não é mesmo? Pois deveria passar protetor solar da mesma forma, aproveitando a mesma ida ao banheiro. Isso é o que defende a dermatologista Luana Vieira Mukamal. Confira nesta entrevista por que é tão importante se proteger do sol e os riscos que a exposição desprotegida pode causar ao longo do tempo.

Por que é tão importante proteger-se do sol no dia a dia, e não somente quando vamos à praia?

As pessoas acham que devem se proteger somente daquele sol muito forte. Entretanto, o maior dano causado é o chamado dano acumulado, ou seja, do sol que tomamos no dia a dia. Há pessoas que chegam no consultório, aos 60 anos, e falam: “doutora, eu não pego mais sol”. Mas e o sol que a pessoa pegou quando era nova? Somente quando ela fica mais velha é que a lesão aparece. Devemos nos proteger todos os dias, até mesmo quando está nublado. Para quem é novo, pode parecer que não há nenhum problema em tomar sol até a pele descascar, por exemplo, mas quando se chega aos 60 anos essa pessoa pode apresentar câncer de pele e ter mais rugas e manchas.

Em quais áreas do corpo precisamos abusar do protetor?

No rosto e, no caso dos homens, na orelha. Eles não têm o cabelo para proteger, e o câncer de pele em orelha em homens é muito comum. Os carecas também precisam passar protetor na área calva. Além disso, braços e colos são áreas muito expostas, tanto em homens quanto em mulheres.

Qual é a quantidade certa de protetor para cada região?

Uma colher de chá para o rosto e três colheres de sopa para o corpo. Se for apenas passar nas áreas não cobertas por roupa, essa quantidade pode ser menor para o corpo, mas para o rosto tem que ser essa quantidade. As mulheres devem passar o protetor antes de se maquiarem. Antigamente, tínhamos poucas opções de filtro solar. Eles eram muito oleosos, com um cheiro muito forte e específico. Hoje em dia, os filtros são muito modernos e há opções para pele oleosa, com cor de base, em pó… Não dá mais para a pessoa falar que não se adapta ao protetor. É bom lembrar também que o protetor solar demora 20 minutos para agir, por isso ao aplicá-lo em casa você aumenta sua proteção.

Protetores têm níveis diferentes de proteção. Qual é a diferença entre eles?

Não recomendamos fator de proteção solar menor do que 30, independentemente da cor da pele. O protetor dura duas horas e qualquer um deles precisa ser repassado dentro desse intervalo de tempo. Um protetor de fator de proteção solar 60 não é duas vezes melhor do que o de 30, digamos assim. A partir do 30, principalmente do 50, a diferença entre os fatores de proteção é pouca, tanto que na Europa há filtros que se chamam 50+, ou seja, não se especifica se é 60 ou 100, por exemplo. Para o dia a dia, o 30 está bom, mas se a pessoa for se expor ao sol, na praia ou numa caminhada, é preferível usar o 50.

Roupas com proteção solar substituem o protetor solar?

Não. Você precisa passar o filtro por baixo delas. Elas agregam muito valor, conferem uma qualidade muito grande ao tratamento. Aliás, não é só a roupa. Já tem barraca de praia com essa proteção e até mesmo sombrinha, que muita gente usa para andar na rua quando está muito sol.

Grávidas, crianças, pessoas com cicatrizes e tatuagens precisam ter mais atenção ao sol? Por quê?

Sim. Grávidas têm muita alteração hormonal e a pele delas fica mais sensível. Por isso, quando em contato com o sol, elas podem ter a pele manchada, principalmente a do rosto, formando os chamados melasmas. As grávidas têm que passar mais protetor ainda, principalmente no rosto. Em crianças com mais de seis meses já se pode usar filtro específico para crianças. Em crianças com menos de seis meses, não recomendamos. Em cicatrizes e tatuagens também devemos passar muito filtro, para não correr o risco de a cicatriz ficar escura depois. Nesses casos mesmo é que se tem que fazer a fotoproteção otimizada. Pessoas de pele muito clara e que se expuseram muito ao sol na juventude também precisa redobrar a atenção.

Que danos a exposição prolongada ao sol pode causar?

Causa manchas, altera a coloração da pele e provoca rugas. Pode provocar ainda lesões que chamamos de pré-câncer, que, se tratarmos, evitamos que se torne um. O ideal é fazer um checkup dermatológico, ir ao dermatologista e olhar tudo, para ver se há alguma lesão com suspeita de câncer ou com probabilidade de se tornar um para já tratar. É bom ressaltar que, depois que o dano foi causado, é possível melhorar a qualidade da pele, mas ela nunca será como seria se a pessoa nunca tivesse se exposto ao sol. Por exemplo: olhe o braço e a barriga de uma pessoa que se expôs muito ao sol durante toda a vida. São peles totalmente diferentes: no braço, que foi exposto ao sol, a pele chega a ser espessa, mas na barriga, mais protegida, ela é lisa, sem nada. Digo que passar protetor solar tem que ser um hábito como escovar os dentes. Eu oriento a passar o filtro na mesma ida ao banheiro para escovar os dentes durante o dia. Isso tem que ser um hábito incorporado ao nosso dia a dia.

A que sinais devemos estar atentos para diagnosticar rapidamente alguma doença ocasionada pela exposição ao sol?

O câncer de pele, que é a doença mais grave causada pelo sol, é uma lesão que aparece repentinamente, cresce rapidamente, não cicatriza, sangra, tem uma coloração diferente. Isso precisa ser avaliado por um médico, que vai saber dizer se a característica daquela lesão é benigna ou maligna.

Qual é o público sobre o qual a doença mais incide? Há diferenças entre homens e mulheres, por exemplo?

Pessoas de pele e olhos claros compõem o público de maior incidência, além de idosos, principalmente aqueles que se expuseram muito ao sol na juventude. A incidência é um pouco maior em homens, que, ainda hoje, não são muito habituados a usar o protetor solar. O câncer de pele é o mais prevalente em todo o mundo, para todas as pessoas. Depois é que vem o câncer de mama para as mulheres e o de próstata para os homens. Em compensação, se ele for descoberto no início, as chances de cura são muito grandes.

Como é o tratamento?

Há a opção de tratamento cirúrgico ou de medicação, mas que são bem específicas para alguns tipos de câncer de pele. Esse é um tipo de câncer que não responde muito bem à radio ou à quimioterapia. O melanoma, que é o câncer de pele mais agressivo, tem características genéticas, pode dar metástase e atingir de crianças a idosos. Felizmente, ele o câncer de pele com menor incidência, apenas 3% dos cânceres de pele são desse tipo. A principal estratégia para tratar um câncer de pele é descobri-lo no início, quando se tem quase 90% de chances de cura. Por isso é tão importante se olhar e fazer o checkup dermatológico. Prevenção e detecção precoce são as duas coisas que mais fazem diferença.

Câncer de pele é algo reincidente? Uma pessoa pode ter vários deles, em locais diferentes?

Sim, porque ele tem a ver com o quanto a pessoa se expôs ao sol na sua vida. Os locais com maior incidência de lesões são rosto e braços, que são as áreas mais expostas.

Câncer de pele no Brasil

Embora o câncer de pele seja o mais frequente no Brasil e corresponda a 30% de todos os tumores malignos registrados no país, o melanoma representa apenas 3% dos casos, apesar de ser o mais grave devido a sua alta possibilidade de metástase. O prognóstico desse tipo de câncer pode ser considerado bom, se detectado nos estádios iniciais. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), para 2016, a estimativa é de 5.670 novos casos da doença, sendo 3 mil casos em homens e 2.670 em mulheres.

Já o câncer de pele não melanoma é o de maior incidência e mais baixa mortalidade, sendo mais comum em pessoas com mais de 40 anos, sendo relativamente raro em crianças e negros, com exceção daqueles já portadores de doenças cutâneas anteriores. Pessoas de pele clara, mais sensível à ação dos raios solares, ou com doenças cutâneas prévias são as principais vítimas. Segundo o Inca, a estimativa de novos casos em 2016 é de 175.760, sendo 80.850 em homens e 94.910 em mulheres.